"O Natal é quando o Governo quiser...!?" |
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Terça, 30 Abril 2013 12:49 |
De uma primeira leitura deste documento, que merecerá uma análise mais aprofundada no seio do Movimento Sindical Unitário, confirma-se a nossa convicção de estarmos perante um Governo sem um mínimo de sensibilidade social, que apesar do revés sofrido com o acórdão do Tribunal Constitucional, não desiste de penalizar os trabalhadores em geral e, mais acentuadamente, aqueles que julga indefesos e sem capacidade de resposta – os reformados, pensionistas e idosos. Sendo a Inter-Reformados a organização sindical que, integrada na CGTP/IN, organiza e pugna pelos direitos dos trabalhadores reformados, permita-se que abordemos esta questão, na perspetiva destes trabalhadores. Contextualizemos sumariamente: 1. O Orçamento de 2012, traduzindo a opção de austeridade dirigida contra os trabalhadores (reformados ou não) adotada por este Governo, em consonância com a Troika, efetuou cortes nos subsídios de Férias e de Natal aos reformados com pensões superiores a 600€. Apesar de estas medidas terem sido consideradas inconstitucionais, por violarem o princípio da igualdade, o Tribunal Constitucional não obrigou o Governo a repor os subsídios retirados. Assim, para além do agravamento geral de impostos ocorrido nesse ano, os reformados sofreram na pele mais essa medida injusta e discriminatória. 2. O Orçamento de 2013, promulgado pelo Sr. Presidente da República, cada vez mais identificado com as políticas do Governo, espelha o falhanço total das políticas prosseguidas. Perante um quadro geral de recessão económica, desemprego galopante, empobrecimento e acentuação das desigualdades sociais, o Governo insiste em mais medidas de austeridade. Mais uma vez, contra os trabalhadores e contra os reformados em particular. Além do assalto fiscal perpetrado (Contribuição Extraordinária de Solidariedade, Sobretaxa de IRS, alteração nos escalões), este Governo, numa atitude de afrontamento para com Tribunal Constitucional e de desprezo para com as camadas mais idosas do seu povo, estabeleceu o corte do Subsídio de Férias. Tentando “dourar a pílula”, ainda ensaiou a manobra de diluir o subsídio de Natal pelos doze meses, procurando disfarçar o impacto deste crime fiscal sobre os orçamentos anuais da esmagadora maioria dos nossos reformados. Tal operação correu tecnicamente muito mal, lançando, no primeiro trimestre do corrente ano, enormes dúvidas e incertezas sobre todo o universo dos reformados que viram as suas reformas amputadas, sem perceberem, a lógica do emaranhado de cortes e acertos que determinaram os valores das suas pensões. 3. Em 5 de Abril de 2013, o Tribunal Constitucional, como era esperado pela generalidade dos portugueses, considerou inconstitucional um conjunto de normas do OE 2013, entre as quais se contava o corte do Subsídio de Férias aos pensionistas. Recordemos os termos do acórdão: c) Declarar a inconstitucionalidade, com força obrigatória geral, por violação do princípio da igualdade, consagrado no artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa, da norma do artigo 77.º da Lei n.º 66-B/2012, de 31 de dezembro, relativa à suspensão do pagamento do subsídio de férias dos pensionistas; 4. Perante esta decisão, algum alívio e esperança sentiram os reformados e demais trabalhadores abrangidos. Mas foi sol de pouca dura. Dois dias depois, o Primeiro-Ministro, numa comunicação ao país, tenta passar para a opinião pública a ideia de que as dificuldades presentes e futuras da governação, resultariam do acórdão do Tribunal Constitucional. Assim, em vez de arrepiar caminho e empreender novas políticas mais respeitadoras dos direitos sociais consignados no texto constitucional, aproveita a circunstância para ameaçar com medidas “alternativas”, que atingiriam ainda mais fortemente o emprego na Administração Pública e os Serviços Públicos. 5. Na patética conferência de imprensa do Conselho de Ministros de 18 de Abril, o Governo, em vez de repor a legalidade constitucional no que toca ao Subsídio de Férias que nos foi retirado, anuncia mais uma manobra dilatória. Pretendia então, transformar o Subsídio de Férias em Subsídio de Natal, empurrando para Novembro o seu pagamento. Argumentou com falta de recursos orçamentais, em que já ninguém acredita, quando se torna público mais um caso escandaloso dos enormes prejuízos para o Estado, resultantes das jogatanas financeiras em que altos responsáveis deste Governo se envolveram, enquanto gestores das nossas empresas públicas. 6. Perante o clamor de críticas que se levantaram contra mais esta artimanha, o Governo, emaranhado nos seus sucessivos anúncios, decisões e contradições, apresenta, agora, o projeto de proposta de lei que acima se faz referência. Que nos traz de novo? Acrescenta mais confusão e incerteza aos reformados e a todos os trabalhadores abrangidos! Tenta dividir (para reinar) os reformados em fatias remuneratórias, aplicando a cada uma delas uma receita diferente: uns, com pensões (de miséria) até 600€, receberiam no Verão, o Subsídio de Natal; outros, com pensões entre 600€ e 1100€, receberiam parte do Subsídio de Natal em Junho e a restante em Novembro; outros ainda, com pensões acima de 1100€ (classe “rica”, para este Governo), receberiam o seu Subsídio de Férias, “transformado” em Subsídio de Natal, dividido em prestações - 10% em Junho e o restante lá para Novembro. Não. Os reformados, pensionistas e idosos que a Inter-Reformados representa, não aceitam ser tratados deste modo irresponsável, com uma total falta de respeito por longos percursos de trabalho e descontos, subordinados a contratos que sempre respeitaram e que agora vêm postos em causa por um Governo socialmente insensível, ao serviço exclusivo dos grandes interesses económico-financeiros. Não. Não podemos aceitar um Governo que olha os reformados como uma despesa incómoda e que os trata como números descartáveis inscritos em folha de cálculo falhada como todas as que têm servido de base às políticas deste Governo. Sabemos que para a esmagadora maioria dos nossos reformados, o conceito de férias é já uma miragem. Mas sabemos também que precisam absolutamente do escasso dinheiro desse subsídio para solver compromissos assumidos e ajudar filhos e netos confrontados com situações de precaridade e desemprego. Os reformados têm todo o direito de exigir que lhes seja feita justiça e que o Governo, sem mais malabarismos, respeite a legalidade. Ou seja, devolva o Subsídio de Férias retirado e que o faça no tempo certo, ou seja no início do Verão. Porque o Verão, como o Natal, não são quando o Governo quiser. Por muito que este Governo queira, não pode mudar o Verão para o Natal ou vice-versa, não pode mudar o país para o outro hemisfério. Não pode mudar de povo. O povo sim, esse poderá, e deverá, mudar de Governo!
A Comissão Permanente da C.E. da Inter-Reformados
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